quarta-feira, 10 de maio de 2017

Vale Mais Ser Amado ou Temido?

Vale mais ser amado ou temido (na chefia)? O ideal é ser as duas coisas, mas como é difícil reunir as duas coisas, é muito mais seguro - quando uma delas tiver que faltar - ser temido do que amado. Porque, dos homens em geral, se pode dizer o seguinte: que são ingratos, volúveis, fingidos e dissimulados, fugidios ao perigo, ávidos do ganho. E enquanto lhes fazeis bem, são todos vossos e oferecem-vos a família, os bens pessoais, a vida, os descendentes, desde que a necessidade esteja bem longe. Mas quando ela se avizinha, contra vós se revoltam. E aquele príncipe que tiver confiado naquelas promessas, como fundamento do ser poder, encontrando-se desprovido de outras precauções, está perdido. É que as amizades que se adquirem através das riquezas, e não com grandeza e nobreza de carácter, compram-se, mas não se pode contar com elas nos momentos de adversidade. Os homens sentem menos inibição em ofender alguém que se faça amar do que outro que se faça temer, porque a amizade implica um vínculo de obrigações, o qual, devido à maldade dos homens, em qualquer altura se rompe, conforme as conveniências. O temor, por seu turno, implica o medo de uma punição, que nunca mais se extingue. No entanto, o príncipe deve fazer-se temer, de modo que, senão conseguir obter a estima, também não concite o ódio. 
(MAQUIAVEL N. O Príncipe)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O CONTRATO SOCIAL EM ROUSSEAU E O IDEAL DE DEMOCRACIA

Uma sociedade verdadeiramente democrática é aquela na qual ninguém é tão rico que possa comprar alguém e ninguém é tão pobre que tenha que se vender a alguém.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) nasceu em Genebra, Suíça. Para ele, é preciso recuperar a saúde integral do ser humano. O caminho é articular a lei com a educação. Não basta somente um contrato social, é preciso que os indivíduos sejam educados sob a perspectiva da vida comunitária. Para o filósofo, é marcante a supremacia da comunidade sobre o indivíduo. A substituição da vontade individual para a vontade geral é o princípio e o critério que tornam possível a vida social. A pergunta que Rousseau faz é: Como educar os homens para a vontade geral? Como fazer os homens quererem o bem comum, superando seus impulsos individualistas?

A vontade geral é fruto de um pacto que se dá entre iguais. A vontade geral não é a soma das vontades de todos os componentes, mas uma realidade que brota da renúncia de cada um aos seus próprios interesses em favor da coletividade. Portanto, a vontade geral não é fruto de um pacto de sujeição ao outro, o que implicaria a renúncia à própria responsabilidade direta e a transferência dos próprios direitos. A vontade geral garante a liberdade e promove a perfeita igualdade entre as pessoas.

Sendo a vontade geral a igual submissão de todos à lei, livremente elaborada pela comunidade, ninguém obedece ao outro, mas sim todos à lei, sagrada para todos, pois é fruto e expressão da vontade geral.

Assim, o contrato social dá origem a um Estado democrático, onde o poder não pertence mais a um príncipe ou a uma oligarquia, mas, sim, à comunidade, que se torna soberana. Rousseau foi o pensador moderno que melhor tematizou e idealizou a democracia. Uma sociedade verdadeiramente democrática é aquela na qual ninguém é tão rico que possa comprar alguém e ninguém é tão pobre que tenha que se vender a alguém. Esse ideal de democracia contrasta com as formas históricas reais de democracia.

Rousseau era um pensador profundamente sensibilizado pelo tema da desigualdade social. A existência crescente da desigualdade, em seus diferentes níveis de manifestação, é a maior ameaça à democracia. Embora os indivíduos possam ter consciência do bem e do melhor, nem sempre são guiados por essa consciência, mas por seus impulsos. Por isso, além da lei e da educação, necessitam de um guia, que os governe na direção da vontade geral, do bem comum.

O processo de conversão do ser humano para a vivência comunitária requer a educação do seu desejo. É preciso aprender a frear os impulsos primários. O caminho pedagógico que Rousseau elabora, que se encontra em sua obra Emílio, mostra que a educação é um problema político e moral, problema relacionado à formação de um novo homem. Essa educação buscará bloquear, desde a infância, toda forma de egoísmo, garantindo a nova orientação do homem na vida social.

Retomo para a reflexão um recorte do texto: “Uma sociedade verdadeiramente democrática é aquela na qual ninguém é tão rico que possa comprar alguém e ninguém é tão pobre que tenha que se vender a alguém”. Como está a nossa democracia? Os homens compram e se vendem? A democracia, no sistema econômico capitalista, só é possível quando as diferenças sociais forem diminuídas. Não se trata de nivelar a todos, mas garantir dignidade de vida, liberdade e igualdade de direitos. Deixe sua reflexão em um comentário...


Referência Bibliográfica:

MEIER, Celito. Filosofia: por uma inteligência da complexidade. Vol. Único. 2ª ed. Belo Horizonte. Pax Editora e Distribuidora, 2014. P. 283-286.

terça-feira, 17 de maio de 2016

O convite à vida autêntica




“Se optar pelo prazer do crescimento prepare-se para sofrer. Quer menos dor? Tudo bem! Vá. Faça parte da massa”. (Friedrich Nietzsche, do filme "Quando Nietzsche Chorou")

Nietzsche reflete sobre a autenticidade da vida que implica nadar contra a corrente. Somente assim, indo contra o fluxo da massa, contra seu tempo, que ele poderá encontrar a fonte: a si mesmo.
O convite à vida autêntica ou à existência legítima implica radical crítica à moral tradicional do senso comum, marcada pela predominância da alienação, da superficialidade ou da massificação cultural. Assumir-se como super-homem é deixar fluir a potencialidade humana que existe em cada um.
Assumir-se como impulso criador implica reconhecer o eterno movimento de volta sobre si e a permanente tarefa e desafio que é ser homem e humanizar-se.
Portanto, a condição humana é a condição de eterno aprendiz, de construção de si mesmo, a partir da espontaneidade criadora de si, em uma permanente busca de si na contramão da correnteza cultural.


(MEIER, Celito. Filosofia: por uma inteligência da complexidade)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O AGIR ÉTICO E A SAÍDA DA MENORIDADE

“A ponte é até onde vai meu pensamento”. A cultura do pensamento é a construção de pontes, de conexões, que não são feitas de concreto, ferro ou cimento, mas conexões elétricas e efêmeras como as sinapses, sempre em transição. Pensar é conectar. Pensar é construir pontes. Para utilizar uma expressão de Deleuze e Guattari, pensar por conceitos é uma atitude sintagmática, de estabelecer relações e conexões.

O AGIR ÉTICO E A SAÍDA DA MENORIDADE

“O Esclarecimento é a saída do homem da condição de menoridade autoimposta. Menoridade é a incapacidade de servir-se de seu entendimento sem a orientação de outro. Essa menoridade é autoimposta quando a causa da mesma reside na carência não do entendimento, mas de decisão e coragem em fazer uso de seu próprio entendimento sem orientação alheia. Sapere aude! Tenha coragem em servir-se de seu próprio entendimento! Esse é o mote do esclarecimento.

(KANT. Resposta à pergunta “que é Esclarecimento?”. In: MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Ética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2017. p. 95.)

Em 1784, o filósofo alemão Immanuel Kant publicou em um jornal da cidade de Berlim, na Alemanha, um pequeno texto com o título “Resposta à pergunta: ‘que é esclarecimento? ’”. Nesse artigo, ele procurou responder a uma questão enviada por um leitor do jornal, que pedia uma explicação sobre esse conceito. E definiu Esclarecimento como a autonomia do indivíduo no uso da própria razão. Quando age de modo racional e autônomo, o indivíduo adquire maturidade, e só assim ele pode ser efetivamente livre.

A regra básica do Esclarecimento é o lema, em latim Sapere Aude! (Ouse saber!). A ousadia do conhecimento próprio e autônomo é a base para qualquer ação humana livre. É preciso saber governar-se a si mesmo, elaborar suas próprias regras, para que seja possível uma ação coletiva.

Um indivíduo autônomo, quando participante de uma coletividade, não se deixa governar e conduzir pela vontade do outro; ele se conduz pela própria vontade livre. Sendo livre em meio a outros indivíduos livres, pode construir uma comunidade livre, uma comunidade de iguais. Aí reside o Esclarecimento: em uma comunidade livre e autônoma, governada por uma vontade comum.

O processo de esclarecimento, segundo Kant, é a saída de uma condição de menoridade, na qual o indivíduo não é autônomo e é governado por outro, para uma condição de maioridade, do exercício da autonomia da razão.

GALLO, Sílvio. Filosofia: Experiência do Pensamento: Vol. Único. São Paulo: Scipione, 2013. p. 149.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Freud e a estrutura do mecanismo psíquico

Para Freud, a estrutura psíquica do ser humano tem três instâncias: Id, Superego e Ego.

O ID
Opera de  acordo com o PRINCÍPIO DO PRAZER
       
Procura apenas a satisfação de suas necessidades instintivas, sem levar em conta as circunstâncias da realidade objetiva, como juízos de valor, o bem, o mal e a moral. O ID é amoral, atemporal, egoísta, agressivo e não tem consciência da realidade. Ele apresenta a liberdade máxima de todos os desejos, sem julgamentos. O ID sempre quer alcançar um objetivo, o de que deve se evitar a dor e obter sempre o prazer. Seus conteúdos são inconscientes e socialmente inaceitáveis. Contém também as lembranças traumáticas que causam ansiedade.

O SUPEREGO
Opera de acordo com o PRINCÍPIO DO DEVER

É a força da cultura, da família e da tradição, que exerce grande influência na estrutura e na dinâmica da mente humana. O SUPEREGO de uma criança é construído segundo o modelo do SUPEREGO de seus pais. Os conteúdos que ele contém são os mesmos e torna-se veículo da tradição e dos valores que se transmitiram de geração em geração. Cada um carrega dentro de si a criança que foi. O SUPEREGO produz angústias, ansiedades e castiga o EGO quando este aceita impulsos vindos do ID. Ele é responsável pela sensação de culpa e cobrança que fazemos a nós mesmos. O SUPEREGO é a parte moral da personalidade, e tem como característica o que é ideal e perfeito. Portanto, o SUPEREGO é aquele que controla a estrutura psíquica. É uma força parcialmente consciente e dele nascem os sentimentos de medo e de culpa.
                O SUPEREGO é o "defensor de um impulso rumo à perfeição".

O EGO (eu)
Opera de acordo com o PRINCÍPIO DA REALIDADE


É ligado ao consciente e pré-consciente. Sistema que estabelece o equilíbrio entre as exigências do id, as exigências da realidade e as 'ordens' do superego; Sua principal tarefa é zelar pela autopreservação do ser, por sua saúde e segurança. A vida do EGO é uma grande angústia, pois deve lidar com as exigências do ID, movido pelo princípio do prazer, sem deixar de atender às demandas do SUPEREGO. Do desequilíbrio dessa relação nascem as psicoses e neuroses.  É o EGO quem controla as ações,  adaptando o homem para as circunstâncias e a vida em sociedade. 


O relacionamento entre ID, o EGO e o SUPEREGO

        O SUPEREGO está evidentemente em conflito com o ID. Ao contrário do EGO, o SUPEREGO não tenta apenas adiar a satisfação do ID; ele tenta inibi-la por completo, o que causa um conflito interminável no interior da personalidade humana.
                O EGO está numa posição difícil, sendo pressionado por todos os lados, cabendo a ele:
  1. adiar os anseios incessantes do ID;
  2. perceber e manipular a realidade para aliviar as tensões do instinto do ID;
  3. lidar com o anseio de perfeição do SUPEREGO. 

Freud e a interpretação dos sonhos

O sonho é a manifestação do desejo
Existe ligação entre o mundo onírico e o da vigília?                        

Há várias maneiras de examinar o inconsciente, mas para Freud, os sonhos são o caminho privilegiado. No sonho há um “conteúdo manifesto” (o que recordamos) e um “conteúdo latente” (o sentido do sonho que o indivíduo não sabe reconhecer). Esse conteúdo pode ser descoberto pela decifração do seu simbolismo.
O sonho é a realização de um desejo até então reprimido, que a consciência censura e considera vergonhoso ou inaceitável socialmente. Interpretar os sonhos é o caminho real para o conhecimento do inconsciente.
 A fome, por exemplo, pode induzir sonhos relacionados à alimentação. As crianças, também sonham com aquilo que desejam ardentemente. É evidente, portanto, que o sonho, apesar das aparências, não está isento de lógica nem de ligação com o mundo da vigília.
Porém, o sonho manifesto, recordado de manhã, já sofreu uma censura.
Freud atribuía grande importância aos sonhos, como sendo um meio de revelar o inconsciente, porque ao dormirmos o nosso consciente está desprevenido. As ações em nossos sonhos, interpretadas corretamente, dão uma clara indicação dos desejos reprimidos e ansiedades alojadas em nosso inconsciente. Em conclusão, o sonho é a realização (mascarada) de um desejo (reprimido).
Além dos sonhos, há outros fenômenos como atos falhos e as piadas.
Os atos falhos são pequenos deslizes, como esquecimentos, trocas de nomes ou lapsos de linguagem aparentemente involuntários, mas que podem ser interpretados porque “traem” algum segredo.

A piada consiste em gracejos feitos sem aparente intenção de ofender ou seduzir, mas que revelam forças agressivas ou eróticas reprimidas.

Sigmund Freud e a Psicanálise

                 A Psicanálise
                
A principal característica do trabalho psicanalítico é o de conhecer o inconsciente e integrar (unir, aproximar) o que contém este inconsciente ao consciente.
A Psicanálise se torna instrumento de autoconhecimento com objetivo de devolver o sujeito a si mesmo, superando o aprisionamento das forças inconscientes, que podem retornar na forma de doença (neuroses) ou nos sonhos.

Uma vez que o inconsciente é inacessível, os conflitos só ficam aparentes pelos sintomas que se manifestam no plano consciente.
O sofrimento emocional, dizia Freud, é resultado de um conflito inconsciente, a partir de conteúdos recalcados, reprimidos.
A inovação de Freud está na possibilidade de lidar com os conflitos existentes no inconsciente e tratar distúrbios psicológicos.
“Falar liberta...”
A psicanálise tem como finalidade “levar o paciente a manifestar tudo o que chega a seu pensamento, renunciando a guiar o pensamento intencionalmente”.  É o que Freud chamou de “livre associação”.
Esse tratamento surgiu a partir da observação dos resultados de um método utilizado no qual o paciente falaria sobre seus problemas diários, e isso causava alívio. Era como se fizesse uma limpeza da alma. Freud passou, então, a utilizar esse procedimento com seus pacientes, fazendo com que eles relaxassem num divã e respondessem às suas perguntas.

Essa técnica não exerce pressão sobre o paciente, que não é forçado, mas guiado a deixar caminho livre para as ideias que lhe vem à mente. O analista, por sua vez, precisa desenvolver uma “arte da interpretação” e tudo é registrado, até mesmo as resistências (aquilo que o paciente tem dificuldade de falar).